Após uma noite de horror, seguir-se-ão dias e noites de vergonha. Nossa geração não conseguiu o básico: entregar às próximas o que nos foi legado. Lá estive com meu filho, e ele não poderá levar os dele!
Algumas tragédias decorrem de fatos alheios à nossa vontade, fora de nosso alcance. O ocorrido ontem, não! Configura-se como a autêntica crônica de uma morte anunciada. Como, aliás, podem ser listados inúmeros outros locais valiosíssimos para nossa nação e para a humanidade – por exemplo, a Biblioteca Nacional.
Temos capacidade técnica e poderíamos ter recursos financeiros para evitar tamanha perda, se estes não fossem seguidamente dilapidados pela corrupção e pela má gestão. Ademais, falta aos nossos dirigentes dos escalões superiores, compreensão e discernimento do real valor, da dimensão, do significado da Cultura, sua enorme importância para a construção da cidadania, para a formação educacional de nosso povo. A mediocridade é a regra.
Há trinta e dois anos na instituição, vejo a luta insana da maioria dos servidores e, justiça seja feita, de alguns dirigentes, contra o descaso, o abandono e a incúria com relação à Cultura de nosso país. Hoje, muitos brasileiros devem ter acordado tristes, porém nós, servidores da Cultura, acordamos enfurecidos, pois alertamos de todos os modos possíveis sobre a imensa possibilidade de ocorrências como esta. Pregamos no deserto.
Muitos ministros e alto gestores da área da cultura passaram, poucos fizeram algo digno de nota. Se nosso cansaço era já imenso, hoje o fardo parece insuportável. E, para coroar tamanho infortúnio, aqueles que nada fizeram vão ainda nos “brindar” com frases feitas e o mais profundo escárnio, ao utilizarem palavras como “reconstrução”.
Poderiam ao menos ter a dignidade de manter silêncio respeitoso para não aumentar nossa dor. Falas como estas somente nos trazem a certeza sobre a extensão da ignorância reinante, dos indivíduos alçados a cargos nos quais o conhecimento e o mérito não são quesitos a serem observados. Gestão profissional e democrática são luxos desconhecidos.
Sentimos a dor de tantos colegas que dedicaram sua vida ao Museu Nacional. Nossa solidariedade fraterna em nome dos servidores do IPHAN e IBRAM, nossos associados.
Até quando iremos escutar slogans ridículos como “A cultura é um bom negócio”? A cultura não é um negócio, é direito fundamental de nossa gente e de toda humanidade. É uma obrigação do Estado brasileiro. A situação de abandono em que vivemos advém desse pensamento errôneo, de se achar que estes equipamentos culturais podem viver sem o devido apoio estatal, em lugar nenhum do mundo isto ocorre!
Antevejo muitas mãos sendo esfregadas com satisfação, olhos à espreita de mega projetos de restauração, que enriquecerão alguns, mas certamente drenarão recursos de outras instituições culturais que apresentam as mesmas mazelas do Museu Nacional, as quais levaram-na a sua destruição. Visão míope, desqualificada tecnicamente e voltada para interesses financeiros imediatistas.
Simulações pirotécnicas destes acervos jamais os substituirão. As informações neles contidas, que poderiam ser retiradas com avanços tecnológicos do futuro, jamais poderão ser extraídas. Perdemos artefatos que ainda tinham muito o que nos dizer, calamo-os para sempre! Ao luto, sobrevém a revolta.
Esperamos que todos os aspectos deste lamentável episódio sejam apurados, pois, nos atuais dias, todas as possibilidades estão em aberto, desde a corriqueira falta de condições de funcionamento, até o acobertamento de ações criminosas. Confiamos que os órgãos da Justiça de fato se imponham, sem açodamentos, mas com a firmeza e a determinação que uma perda desta magnitude requer.
Faz um ano que fiz uma palestra com o título Saberes Perdidos, sobre a questão da prevenção de incêndio em bens culturais. Pois bem, muitos saberes neste incêndio foram irremediavelmente perdidos.
Leonardo Barreto
Presidente ASPHAN



